30 de set. de 2010

Apenas a vida, certo?

A gota de chuva deslizou sobre a curvatura do nariz e caiu em sua unha vermelha, no dedão do pé. Cabelos pesados, como as roupas. Ambos encharcados.

Guarda-chuva violeta com um babadinho em volta. A gota caiu do nariz, deslizando sobre o cabo prateado do acessório, logo atingindo a mão. Um calafrio, uma sacudida no braço.

- Hmm. Um furinho aqui.

Céu trovejante, iluminado por relâmpagos. Para-se na porta da loja, aproveita-se da cobertura e descansa a mão já incomodada.

- Chaves? Chaves?

Prateados como o cabo do guarda-chuva violeta, aquele com babadinho em volta, elas sobem do bolso com rapidez, tintilando barulho de metal.

- Chaves!

Abriu a porta com pressa, arremessou a roupa no canto da parede, como pedra.

Arremessou. Agora a si mesma, rumo à cama.

23 de set. de 2010

A doçura de nossos dias

Pessoas caminhando na calçada, mordendo e lambendo seus preciosos sorvetes. Todo aquele açúcar invadindo a privacidade de seus corpos, e uma maré alcalina possuindo o andar de suas pernas.

Vagarosamente eles se locomovem. E como em uma corrida de carros, quem está atrás tenta ultrapassar. Mas os primeiros colocados são extremamente vagarosos, e nem por isso quem está atrás, em uma velocidade superior, vai alcançar a glória das primeiras posições. Todos aqueles vagarosos formam uma barreira humana, pessoas em passos lentos, tomando seus sorvetes e batendo um papo desenfreado.

Passos acelerados por trás, alguns se tocam da inconveniente situação. Um espaço é cedido para a passagem, e nós, apressados e já irritados, ultrapassamos com um andar rapidinho, demonstrando a insatisfação.

Sorvetes são pedaços de preguiça, invadindo a privacidade de nossos corpos. A doçura conveniente para quem o lambe e inconveniente para o restante.

15 de set. de 2010

1° dica

Em meio às calçadas da Avenida Jerônimo Monteiro, o repórter corre atrás dos cavalos. É 7 de setembro e durante o desfile a cavalaria passou despercebida. Galopes ao fundo e ele se deu conta que tudo já se foi.

Em meio às calçadas da Avenida Jerônimo Monteiro, desviando da multidão nas estreitas calçadas, corre o repórter.  Câmera na mão, panfletos eleitorais na outra. A foto é essencial.

NOTA: o repórter é educado e não ignora os transeuntes que lhe oferecem panfletos ao decorrer do caminho. Apesar de achar um desperdício, ele faz esse sacrifício.

5 de set. de 2010

Alma

Tenho algum tipo de bloqueio ao encarar estes teus olhos verdes. Aglomerações das mais exuberantes árvores tropicais. Brisas refrescastes e calor o tempo todo.

Perco-me, coberto até a garganta por tantas árvores. Na verdade posso nadar nesses seus olhos. Ao acordar, encontro-me petrificado e fascinado.

Em outro tempo, superei conhecidos olhos azuis. Naufraguei em profundidade, e  não me foi dada a oportunidade de nadar de volta. Acordei em uma ilha qualquer, por acaso, sem saber por que.

Enquanto por lá estive, olhos negros vieram a tona. Clareza ausente, monocromia tediosa e amendontradora. Desses olhos corri. Correndo, na mata entrei. Entre as árvores, encontrei os verdes olhos. Sem profundidade, sem medo, sem ameaça. Apenas um bloqueio, um frio na barriga e alguma fascinação.

30 de ago. de 2010

A Sociedade do Fundo do Fosso

O odor acordara alguém no fundo do fosso. Mofo, umidade, cheiro que nariz algum mereça. Ele acordou com falta de ar. Toda a sujeira daquele ambiente já havia impregnada sua pele, seu cabelo, suas roupas. Levantou-se assustado e sacudiu-se igual cachorro molhado. Olhou para uma luz acima e, após presenciar um relincho sobrenatural, avistou olhos pegando fogo.

Abriu a boca para gritar e esterco caiu do céu, escorregando pela parede pontiaguda. Saboreou o gosto de cadáver, assustou-se e cuspiu, passando a mão na língua. Barulho forte de asas em movimento, algumas penas vermelhos espalhadas pelo ar e outras adormecidas no chão escuro e úmido. 

Uma corrente de ar atravessou seu corpo, era a criatura em movimento. A besta atirou-se no fosso, abriu as asas e planou. O homem encardido de fezes escondeu-se na escuridão de uma quina ali por perto.

As rachaduras exalavam cheiro do lado de fora, há muito tempo predominante por ali. Aromas de outras épocas, de outras estações e de outros cadáveres. O homem era quase um cadáver, um cadáver defunto. Imensa podridão no ambiente, marcada pela decomposição da quase que não finita matéria.

A criatura descia planando com suas grandes e avermelhadas asas. Jorrava suor por entre suas partes desprovidas de penugem, imundas e feridentas há bastante tempo, desde que apareceram por ali.

"Face a cara" com a besta, o homem arregalou os olhos com uma apreensão provida de pavor. As mãos excitadas em agarrar um cascalho, o mais pontiagudo possível. E foi lançado, vazando o olho da besta. Enfurecida, decepou o tronco do homem com a força das patas traseiras, demasiadamente cascudas. Um coice perfeito, corpo partido em dois, distância recorde de lançamento.

Uma besta caolha, um homem defunto cadáver. Mais matéria e podridão. Outro juntou-se à sociedade do fundo do fosso, inclusive o olho da besta. Mas esta ainda voa por aí.

26 de ago. de 2010

Não Obstante,

Entretanto, olhava para a vidraçaria no teto, quebrada. Todavia, ali por perto, meninas brincavam batendo as palmas das mãos e cantavam, coisa que me chamava mais atenção. Tempos remotos da infância, que todo dia era divertido e despreocupado.

Novamente desviando o olhar para a vidraçaria do teto, quebrada. Poucas pessoas notariam isso, conclui. Estéticamente detestável, como quatro bancos alternados por quatro lixeiras, em uma tentativa falha de formar um círculo no meio do ambiente. É um retângulo.

E pela vitrine da loja, vejo por ali alguns aparelhos de som, daqueles grandes de por na sala, e imagino quem compraria tal equipamento. Em um mundo em que toda música é MP e algum número, e que computadores portáteis são os toca-discos mais moderninhos, tal aparelho de som fica em uma grande desvantagem utilitária, grande e fixo. Mas são de um designer interessante, decoração... Terei um desses em minha casa, em breve, na sala de estar. As visitas olharão para ele e ficarão com inveja por não terem um. Um moderno mini system.

Perdidos nesses pensamentos, até achei-me inteligente por algum momento. Mas creio que pouca gente acharia incrível o que eu ando refletindo pelas ruas, pelos shoppings, pelas feiras, pela universidade... 

22 de ago. de 2010

A Basculante

Acordara assustado, com medo de sair. Sonhou estranhos fatos, acordou, pulando, e gritou. Nada vira igual, dolorosa realidade. Da janela avistou chover gente, montada nas gotas da chuva.

Não havia água em sua casa, apenas o zumbido da encanação vazia. Angústia lhe dava sede, e não podia matá-la. Angustiado demais em seus próprios pensamentos, supôs estar louco, e concluiu não estar. Era real em seus sonhos, como é real ao olhar pela sua janela. Apocalipse.

Preparou-se para o pior, o qual já conhecia. Tudo devidamente mapeado em seus sonhos. E no canto da parede ele se acomodou, com uma faca da cozinha em mãos. Palhaços vermelhos por ali passaram, sussurrando coisas abomináveis.

Agarrou a pequena foto da filha, e do coração jorrou sangue vermelho e vívido. A menina no corredor, e o pai no canto da parede. Lágrimas em ambos olhos, sangue no chão. Filhinha, vai dormir... Que papai já tá indo te cobrir.

Pela basculante, avistava-se chuva fina e serena.