18 de abr. de 2011

Artesão de Mundos

O mesmo que lhe oferece conforte poderá ferir. Desde pessoas gentis que lhe farão mal quando conveniente, até objetos inanimados; um ventilador de teto que se desprende e fere pessoas distraídas em suas vidas. Movimentos circulares no ar, infinitas voltas, danos provavelmente irreparáveis e ciclos recomeçando e recomeçando.

A vida. Entendida como uma troca envolvendo dois lados, o que é conveniente e o que desprezado. No mundo, a conveniência é sublime e finita. Nada é bom por muito tempo, alguém diria. Talvez acabe de maneira errada ou já assim começa, ou quem sabe a cobrança por bem feitorias virá em dobro, triplo, tudo.

De fato, de santo o mundo nada tem.

13 de abr. de 2011

Dentre as possibilidades, uma certa

Qual o motivo desta cara feia?
"É a dor do trabalho".
Trabalho? Mas você não está em casa?
"Sim, mas é uma dor crônica".
Sua esposa não cura?
"Não, nada cura".
Remédio?
"Não".
Médico?
"Não. É uma dor crônica, castigo divino."
Então, talvez o padre cura?
"O padre manda trabalhar".
Abandonar o emprego, talvez?
"Ah! Preciso sobreviver."
Então sobrou ganhar na loteria...
"Definitivamente, essa é a solução mais viável".

7 de abr. de 2011

Moderna vitrine

Passa na rua, em uma escuridão noturna, certo ônibus refrigerado. As pessoas se sacudindo junto ao veículo, um vai e vem de corpos e partes metálicas. Avista-se algum revestimento de vidros embaçados, com gotículas de águas visíveis e sombras fundidas. Lembra um açougue, com suas peças de carnes geladas ao balanço de um recente manuseio do açougueiro.

É o chamado turno noturno. As peças deixam o veículo, dirigem-se aos seus destinos. A casa do chefe, de onde  se adquire sustento. Ali, todas são devoradas.

4 de abr. de 2011

Ritos rápidos II

Duvido de toda esta didática empregada. Observo cada um mergulhado em seu próprio pensamento, em um ato egoísta. A partilha vem de poucos, e a discórdia de todos. Enquanto isso, sobra a mim relatar.

31 de mar. de 2011

Ritos rápidos I

Relevar a uma singela tranquilidade tal afeição é fato. Seu olhar assim o é. Como uma manhã nublada, nem quente como um dia ensolarado ou negra como a noite se revela. Simplesmente nublada, serena. Arriscaria dizer misteriosa.

28 de mar. de 2011

Sorria, você não está sendo filmado

Ao lado, no banco de qualquer lugar, havia uma garota. Cabisbaixa, algo como que chateada, mãos atadas à bolsa, a qual contraía contra ao peito. "Ei, quem é você, porque está assim?". "O dia poderia ser pior", diria. Pois, explicaria, "o mau tenderia ao infinito, assim como uma teoria matemática financiada por áreas quadradas".

E como a tal matemática que não compreendo e com a qual não lembro de compartilhar facilidades, a feição cabisbaixa da moça continuava misteriosa. "Apenas aceite minha singela teoria". Diria mais, "pegue sua bolsa e vá tomar um sorvete". Eu até pagaria, sem compromisso ou intenção alguma. "Esfriar a cabeça", completaria.

Supondo um convite aceito e um rápido lanche, despediria-me dela com um sorriso meio forçado. Não sou pesquisador ou cientista, na verdade. "Mas, de fato, todas essas mazelas tendem ao infinito". Seu dia foi ótimo, sorria.

23 de mar. de 2011

O além e o agora

Essa gente encoberta por guarda-chuvas, andando na chuva, penando em pensar sobre a vida. Qual seria a combinação perfeita para o próximo dia, as possibilidades presentes em seus guarda-roupas e outras coisas tão mais importantes. Capa de chuva e galocha, talvez.