13 de nov. de 2011

Pouco metódico

Sem graça este local, uma mistura de quatro cores intercaladas por letras. Mais agradável é o vento lá fora, os cachorros na calçada e as acerolas prontinhas para saborear. Aqui, a situação é esteticamente deplorável, porém séria. Diria até mais saudável.

Saudações ao meus pensamentos, aqueles que por aqui aparecem. Pois, assim, poderei saborear as acerolas, curtir os cachorros e sentir o vento. Despreocupar e me concentrar. Esvaziar a mente, e isso não está na moda. Incomum, e faz muito bem. Aliás, nem tudo da moda é bom.

Investi erroneamente em alguns fatos. Não percebi os resultados esperados, muito menos avanços relevantes. Talvez fossem duas ou três situações em que trabalhava. Todas falharam. Portanto, pensei no fracasso. E preferi acreditar em escolhas erradas. Agora deixarei as certas me encontrarem.

Então, de volta ao zero de expectativas. Disse, algum dia, que a bendita expectativa é melhor que a concretização do fato. Pois, assim vive-se de sonho, e enquanto assim o é, perfeito me parece. Quisera viver de ilusões por muito tempo, mas descobri que até mesmo o fracasso torna-se necessário. Pois, assim, abrem-se portas para outras expectativas. Estas talvez concretizadas e, por sorte, permanecendo idênticas aos sonhos. Duas ou três é melhor que uma.

Voltemos as acerolas, pois já existem e são doces. O vento se revela ao derrubar as frutinhas maduras, e os cachorros as abocanham com sagacidade, ainda em queda livre.

7 de nov. de 2011

Quatro ou duas perninhas

Andar de moto compreende em assumir um risco além daqueles oferecidos por automóveis em geral. Consiste em arcar com a queda em sua integridade, doar o corpo ao asfalto e torcer para o menor dano possível.

Assim, uma racha sobre duas rodas eleva o risco de queda em 10 vezes. Chute pouco matemático mas compreensível. Aliás, capacetes são até são legais. Rosas, verdes ou azuis. Um grande impacto e estilhaços coloridos e avermelhados ao ar.

Na vida, o caminho mais fácil não tem a estabilidade de quatro rodas. Diria ter duas. A variedade de capacetes são muitas, e a sensação de segurança é até aceitável. Mas, no fim, o impacto é devastador.

Por favor, quatro rodas. Um conselho educado e preocupado, apesar das escolhas e besteiras serem de responsabilidade sua. Teria eu haver com isso?

6 de nov. de 2011

O ingênuo fato da certeza

Em direção ao destino diário, aquele rotineiro e no qual se executa atividades ainda mais rotineiras, observa-se a irregularidade dos paralelepípedos no solo (a situação de olhar para o chão, caminhando de maneira às cegas, consiste no fato de que o sol ofusca a visão ao se olhar horizontalmente).

Padrão irregular, diria defeituoso e relutante em ser harmônico (obviamente uma visão particular). Basta um olhar não muito atento, uma espiada no espelho pela manhã (o ritual de lavar a face), as plantas nas ruas (balançar das folhas), o vento levando o pó e outros. Fora do padrão. Para o indivíduo em questão, desarmonia.

Alguém que se vê perfeito, ou tem essa concepção de alguém, não pertence a este mundo. Ainda mais se acredita que fatos caminham para finais felizes (no final tudo dará certo). Não pertence, então, a esse mundo mundano. Está preso em outro lugar qualquer, criado por alguma espécie de dogma.

Irregulares os paralelepípedos, assim como a maneira que as coisas são concebidas e as situações proporcionadas por elas se desenrolam. Assim, sem padrão algum, reviravoltas são possíveis. O ingênuo fato da certeza, aquele que se depara com a incerteza.

Portanto, rotina é mito.

2 de nov. de 2011

Finados

Durante toda tarde, o vento uivou incessantemente por algum orifício da janela, além de uma cor densa e azul que se avistava pelas persianas. O frio tomou conta das extremidades do corpo e as cobertas foram amigáveis.

Típico dia de finados, pouco convidativo para uma boa caminhada lá fora. Entretanto, o ar de dentro das residências ficou impregnado de uma pureza convidativa a uma voltinha em meio ao relento. Ar úmido com cheiro de água. Parecia até nevar por algum instante, mas a localização geográfica quebrou a incerteza. Apenas um dia estranho, o dia para os mortos.

Então morri em minha cama por algumas horas, livrando-me daquela canseira acumulada durante a semana, a que aproxima nossos reflexos aos de um cadáver. Então, hoje, foi dada a chanse dos mortos descancarem, aqueles cadáveres que não estão enterrados e andam por aí. Feriado nacional.

Aliás, observei por aí algumas lamentações. A tentativa de justificar algo tentando encontrar uma suposta beleza a qualquer custo. Grande lamentação. Foi o ato mais tosco que vi durante a semana, pois a tentativa pareceu tão evidente que tornou-se ridícula. Um comentário desnecessário, este meu e o citado da pessoa.

Entretanto hoje fora dia de lamentar. Por tanto, relevei um pouco minha surpresa. Lamentar pelos falecidos queridos e os problemas mundanos. Deitar, tentar dormir, acordar atolado de lamentações. Por isso, hoje, escolhi ficar indiferente a tudo e meu sono fora ótimo. Minto, ao fato citado agora a pouco foi impossível ficar indiferente. Apenas imaginei que fora uma situação irrelevante.

30 de out. de 2011

Exorcismo

Esta é a ânsia frenética entre uma vida comum e uma além disso. Por isso todas estas reclamações e indagações infundadas, noites mal dormidas e pensamentos inconclusivos. Somam-se objetivos fora de alcance e situações não solúveis.

Também declarações pessimistas, tal como essa. Entende-se uma pessoa que escreve por concordar, e outras que leem e entendem por vivenciarem. Supõe-se que entendem e não se pode afirmar que concordam.

Então, às vezes, deito no chão com algumas almofadas. Apoio minha cabeça nelas e abro o laptop em direção a varanda, tentando escrever situações mais harmoniosas. A cama, no canto escuro, é carregada de lembranças ruins.

O tempo está chuvoso e consideravelmente frio, a brisa da enseada refresca a face cansada e o som dos carros passando em pista molhada é evidente. E, ao longe, crianças gritando alguma coisa que parece ser bonita. Escrevo pois, assim, coisas fúteis e não pessimistas. Confesso que gosto muito mais das fúteis, pois ao menos  refletem tranquilidade e descompromisso.

27 de out. de 2011

De cima a baixo e um sorriso

Elevadores são suntuosos e misteriosos ambientes quando se está sozinho. Proporcionam uma série de rituais, geralmente socialmente banidos ou sinônimos de deboche certo e muita criticidade.

Então, elevadores são lugares de dramaticidade. Muito mais que isso, de interação consigo mesmo e de experimentação. Mas, para propiciar tais aspectos, basta a sorte de uma viajem sozinho. Não se assuste com sua sessão de poses e estranhas, limpeza de lugares indevidos, sussurros de palavras em incentivo ao ego.

Inspeção de cima a baixo e uma penteada no cabelo. Essa é a sorte de estar sozinho. E, às vezes, uma flagra. A porta abre e na distração não se percebe o indivíduo estranho a contemplar você.

Mas o grave consiste na bendita câmera ali em cima. Alguém, em algum lugar e alguma hora, vai apreciar todas essas privacidades esdrúxulas. Comprará pipoca, coca-cola e vai enfileirar os vídeos dos últimos três meses. E em um longo feriado, sentará numa poltrona enrugada, gargalhando até dormir, saciado de entretenimento e de barriga cheia.

Sorria, você está sendo filmado. E quem ri por último é o indivíduo lhe verá em uma época posterior, às escuras.

21 de out. de 2011

I can hear the ocean

Do alto da cama, por baixo dos panos e na segurança do quarto se escuta o oceano. Em vezes raras e  imprevisíveis, como calmos finais de semana e feriados específicos, estes pouco badalados e ocupados.

Ainda coberto na cama, a relutância em levantar é grande. Pois a maré desenha na areia e a música saí com pressa e maestria. Os pássaros, desconhecidos e de cantoria bela, completam a presente melodia. 

Completamente analógica a música, todos os devidos dispositivos de ruído intermitente desligados. Está, por sorte, o celular com a bateria morta e o computador com a tela negra. Ao fundo se ouve rádio, fecha-se a porta. Saudações ao vento. Novamente, uma música completamente analógica.

Do alto da cama, coberto e com preguiça, ainda se escuta a maré. Por mais que o sono ataque e a mãe convide para o café, ainda se ouve o oceano muito mais sedutor.