5 de mar. de 2012

Espetáculo cível

Todo dia cavam e parece eternidade a obra. Barulhenta e poeirenta, por isso uma mesmice irritante e não ignorável. É preciso passar, então olhamos, mas nem sempre se acredita na validade dos fatos.

Então, novamente, a mesmice irritante e pouco ignorável. Por sequestrar toda a atenção, torna-se sedutora, pois é só o que se conhece. Então não há mais o que temer, o que chorar ou comemorar. Só há o que contemplar.

25 de fev. de 2012

Boa noite

Porta fechada e iluminação tímida. Na janela, um vulto. É noite e espera o dia.

Boa noite.

24 de fev. de 2012

Boa tarde

Após ouvir, precisou ver. Pois o segundo abala menos que o último. Então satisfeito, fugiu.

Tenha uma boa tarde.

23 de fev. de 2012

Bom dia

Tão pesado como blocos de grafite. Também maleável, capaz de riscar o papel. Um banho de autocrítica, letras em destaque, nítidas.

Tenha um bom dia.

17 de fev. de 2012

O inventor de orvalhos

Chovera breve durante a madrugada e, ao acordar, ainda avistou as árvores úmidas. Sentiu alguma saudade e desejou que chovesse durante todo o dia, mas o sol castigou aqueles que andavam pelas ruas e a ele também. Sentira tanto desconforto que desistiu do trabalho e bolou um plano para acabar com as tardes quentes e áridas. "Vai ser sensacional", cochichou com dúvida. "Vai, com certeza!", gritou com ânimo.

Rabiscou papéis, paredes e móveis. "É isso!", disse com dúvida. "É certo", cochichou, expressando certeza. E Costela com as orelhas atentas, ouvindo. 

"Venha, Costela!", "É hora, é hora!". Ele e o cachorrinho embarcaram na banheira. Geringonças ativadas e botões piscando. "É hora!", "Já está tarde!". Era a máquina da chuva. A casa encheu d'água, os móveis boiavam. Costela, agitado, se agarrou ao esfregão e viajou entre os comodos do pequeno apartamento.

Amanheceu, o prédio de 10 andares reluzia d'água. Ele, ao acordar, susurrou aliviado: "Veja, Costela. Muito mais fresco!". O amigo latiu, e foi dar uma volta de esfregão.

15 de fev. de 2012

O cupido e a ascensão individual

Citações impopulares:

"O segredo de boas relações e reputação relevante não reside em atitudes bondosas ou solidárias. A receita está forjada na capacidade individual dos indivíduos, compreendida na possibilidade de doar características singularmente cativantes".

"Relacionamentos não são desvendados com livros e conselhos de familiares. Dependem da construção de seu intelecto e da relação dele com as pessoas. Então está tudo confinado em um âmbito complexo, um emaranhado de experiências e bom senso. Livros e conselhos são frios".

"Fingir é falho. E o que é falho é descoberto. Por tanto, o que vale é mediar sua capacidade de conquistar indivíduos".

9 de fev. de 2012

Carpe diem, cada galho com seu macaco

Chamo, aqui, de lugar secreto, obviamente pelo desconhecimento por parte de indivíduos. Mais que timidamente visitado, extremamente agradável. No ar, uma maresia salgada e refrescante, e, nas avenidas, plantas singulares. 

Aqui perto existe uma reserva, demasiados insetos e vegetação pouco explorada - estranhamente denominada virgem. Essa singularidade a torna especial [dotada de mistério]. Aqui, nesse bairro bucólico, morar de encontro às plantas é, como ressaltado, agradável. Mas queria mesmo uma casa na árvore, no topo daqueles intocáveis troncos marrom-acinzentados e de folhas de gradientes verdes.

Exatamente de encontro ao "espírito símio". Não no aspecto criacionista ou darwinista, mas em outro sentido, dizem que espíritos [chamam de fantasmas] podem fazer o mal. Tais criaturas vagam por aí. No caso de morar em árvores,  o mal que vejo é um tombo, consequencia de um sopro do além ou das leis físicas. E haverá de ser fatal em uma altura considerável. Não sou espírita, mas conheço um pouco de ciência. Não obstante o fato dela também ser, às vezes, desprovida de sentido.

Não convém se espíritos [talvez divindades] ou ciência produzem avenidas, maresia ou insetos, ou se ambos conspiram contra nossa sorte. Aliás, observei que a existência e seus eventos são melhores [supostamente] aproveitados sem o questionamento de suas origens. Por isso é comum viver feliz na ignorância, contemplando aceitações. Carpe diem. Questionar é perda de tempo.