10 de mar. de 2011

Na avenida, nós e a chuva

O carnaval não fora como o esperado, haja vista que a chuva que só deu trégua na quarta-feira. Para os que curtiram o feriado no lar, a água caiu do céu sem maiores problemas. Mas para os senhores e senhoras que aproveitaram as festividades ao ar livre, o obvio é que eu não posso responder por vocês.

Para aqueles que ficaram no silêncio de suas casas, sem a TV ligada no desfile multicolorido, pensando, arrisco dizer que a mente não parou. Aquela nostalgia de rotina, que hora se arrepende do que não fez e planeja aquilo que poderia ser feito de melhor. Denominada insônia que nos puxa até a madrugada para fora de nossas camas.

Os livros são trocados pelos pensamentos. E aquela TV com suas cores vibrantes e seus desfiles, hipnótica, está desligada. A época de ver tais alegorias já se foi.

A opinião se ainda não é clara, brota entre as letras. Prefiro o silêncio e uma mente fervilhando de teorias a senhores e senhoras em seus desfiles. Cada um com sua mania.

2 de mar. de 2011

Na rua, educação

Durante a tarde de um dia útil, professores cercam a prefeitura a pedido de seus reajustes salariais e outros benefícios negados. “Educação na rua, João a culpa é sua!”, eis o lema da empreitada.

Um senhor de voz rouca discursava os débitos da prefeitura e a platéia apoiava com assovios e apitos. “Desculpem minha voz, mas hoje pela manhã também havia muito de vocês por aqui, lutando pela mesma causa”, alegava o orador.

Tempos depois, após um discurso que trouxe para fora os rancores na alma, é hora de obstruir a rua. “Peço a vocês que fechemos esta avenida em protesto, deixando apenas uma via aberta para a circulação de ambulâncias e ônibus”. E eu do outro lado da rua já lamentava.

Manifestantes carregando a faixa pela avenida. “João a culpa é sua”, dizia. Trânsito lento, engarrafamento iminente. “Certo, é um direito de vocês”, pensei. Porém, ficar por ali significava não sair dali.

Uma caminhada debaixo do sol quente em direção à Avenida Vitória, sem manifestantes, desobstruída. “Oh, eles estão no direito deles”. Um refrigerante para esfriar a cabeça; e a caminhada nem fora tão longa. Após, eu em casa cismando, “apesar, é direito deles”.

16 de fev. de 2011

A cova do coveiro

Maldade nos faz parte como nossa carne semeada de sangue. Lares construídos em ambição, levados pela maldade de possuir as coisas. Prédios lotados de ambiciosos, maldosos por natureza.

Toda ambição desprovida de maldade é filantropia, supostamente a que enriquece a alma. Mas nem de toda bondade vive o homem, aquele que come e também bebe. Reside em nós o mal de barganhar a força de trabalho, explorar, deixar ser explorado. A ambição que consome o homem.

A evolução requer despedaçar o próprio corpo, substituído por resquícios de satisfação. Todos colados na alma.


4 de fev. de 2011

O grande alvo

Prezados clientes, em cinco minutos estaremos encerrando as atividades do dia. Assim foi anunciado no estabelecimento, através de uma voz feminina extremamente pausada. Como se estivesse narrando um velório, um som extremamente cadavérico e desagradável. Vão embora, seria uma mensagem mais objetiva.

Chamo isso de ato de expulsar.

A música ambiente sumiu. Vão embora, sem mais moleza durante as compras. Rápido, dirija-se ao caixa mais próximo. Caixas cansadas, poucas ainda preservam seus sorrisos forçados. Mais aí vem surpresa. “Boa noite, senhor”, disse o embladador ao cliente. “Boa noite Sônia”, disse à moça da caixa. Finalmente alguém de bom humor.

Chamo isso de quebrar o clima pesado.

Alguns risos e ele completa: “meu turno começa agora”. Outros risos acompanhados de meus risos.

Chamo isso de “te peguei”.

24 de jan. de 2011

O grande salto

A probabilidade de uma pedra cair no mesmo lugar, seguindo a mesma trajetória, fragmentando-se da mesma maneira e fazendo exatamente o mesmo ruido é baixa. Para alcançar o que deseja, escolha o outro caminho. O mais insano, o mais criticado.

Papai Noel não é o mesmo simplesmente por que se joga das chaminés em queda livre. Então, você não o será se fizer o mesmo. As pessoas vivem se jogando nas lareiras de mansões, e no fim do expediente encontram dor em seus corpos. Nada alcançaram além da idéia obvia: não são o bom Noel.

18 de jan. de 2011

Gananciosos, Vampiros

Fúnebres partes encobertas de mato, velhas tumbas saqueadas, sem mais metais incrustados. Supostas gárgulas vigilantes no topo dos mausoléus e alguma terra úmida do último cadáver a ser enterrado.

Caminhando entre cruzes coloridas, pontilhadas de lama seca e negra. Ossos de um cadáver revirado, uma cova arrombada. Seus pertences extraviados.

Por aqui, morrer em paz é um mito.

14 de jan. de 2011

Contos...

Viu nos olhos a mentira que circundara todos os últimos minutos. Havia maquinado a vingança em exatamente dez segundos. Dois para puxar a arma, cinco para proferir algo de impacto, três para disparar e olhar o corpo tocar o chão.

Olhar o corpo tocar o chão não era opção, consistia na parte mais excitante para ele. E a gravidade impede outra situação.

Lâmina não deixa rastros para exames de balística, mas seu manuseio descuidado resultaria em uma bagunça desenfreada baseada em respingos de sangue. Nada de usar os punhos. Seria uma luta em desvantagem, em que o alvo seria mais habilidoso no corpo a corpo. Escolhera a arma de fogo e efetuara o trabalho sem o risco de expor-se ao inimigo. 

10 segundos.

O corpo tocou o chão. Um silvo de respiração. Apreciava a pólvora e o momento. 

Sirenes são estúpidas, alertam da chegada dos problemas. Entretanto, assim é para que todos saiam da frente. E espantam os alvos também.

A janela está aberta, a brisa refresca o sangue pouco morno. Os técnicos examinam o corpo, e o autor do incidente já reside longe.