17 de jul de 2010

A história do anjo que caiu

O céu nunca fora tão límpido. As nuvens correram do olhar de Liza. E, ao cincurdar com os olhos todo o globo sobre sua cabeça, ela adormeceu. As nuvens ressurgiram, carregadas de raiva. Chove no rosto de Liza. Levanta-se assustada, pensara que havia chorado. Logo compreendeu.

Encara o céu, e se dá conta de que aquilo não funcionaria mais. Saca a espada, ergue as assas. Sobe com a brisa do mar e plana com o vento do bosque. Delicadamente, tira a espada da bainha. Murmura palavras previamente decoradas e as chamas tomam conta do artefato. Estende o braço, e com a espada flamejante como guia, perfura o céu carregado de raivosas nuvens. E, ao chegar no topo, apenas deseja se deitar no bosque e observar novamente o céu.

Desfaz o feitiço, recoloca a espada na bainha, recolhe as asas, e se deixa cair. Uma sensação única.

15 de jul de 2010

Toda vida dá um Romance

Chego à praça. Sento. Observo o ambiente.

Um casal à minha esquerda. O rapaz olhando para a moça. Dizendo-lhe algo. Nada escuto. Suponho que ele pergunta: “Vamos casar”? Ela responde: “Casar, eu? Noiva? Mas falta muito para isso aqui ser um namoro!”.

O casal caminha e eu os perco de vista.

Três meninas à minha direta. Uma diz: “Vai um fast food?”. A outra fala algo. Nada escuto. Suponho que ela disse: “Certo! Mas terei que contar as calorias”. A terceira fala por último: “Ah! Tem uma tabelinha por lá! Você multiplica qualquer número por três. Daí você tem uma margem de segurança. E ainda é arriscado desistir de comer. Maravilha!”.

As três se dirigem ao Mac Donald’s, e não as vejo mais.

Dois rapazes à minha frente.

O primeiro diz: “Preciso de um carro”. O segundo responde: “Carro? Onde você vai arranjar dinheiro para isso?”.

- Não importa – reponde o primeiro – preciso de um carro.

O segundo nada fala, mas faz cara de reflexão e esbanja um sorrisinho de deboche. Suponho que ele teria dito: “Mas nós adoramos o transporte público”.

Os dois entram em um ônibus. Somem de vista.

Ali por perto, um pássaro fez cocô na mochila de uma menininha com cachinhos. Ela não viu, mas eu vi. Nada falei. Analisando o rosto da menina, de uma feição escandalosa, pensei: melhor não avisar.

Do outro lado da praça, tinha uma mulher de meia idade. Olhava para o céu. Resolvi procurar o motivo da atenção. Pássaros! Talvez o pássaro que defecou na mochila da menina estivesse por ali. Foi aí que reparei a zona de perigo. Constitui que: os pássaros descansam nos fios dos postes, e quem estiver ali por baixo tem grande probabilidade de ser adubado pelo cocô dos animais.

Não. Não avisarei a menina com feições escandalosas.

A mulher, de meia idade, levanta e vai à padaria. Não a vejo mais.

Filho e pai aparecem por perto.

- Vem, Pedro! Vem!
- Não! Não vou!
- Tá! Então fica aí!

O pai se afasta.

- Pedro! Vem!
- Não! Não vou!
- Então xau!

O menino cismou em chorar. Correu em direção ao pai.

- Tá! Eu vou! Mas quero sorvete!
- Tá! Tá bom!
- De chocolate!
- Tá! Tá bom!
- Eu vou. Mas quero sorvete! Entendeu?
- Sorvete! É Claro!
- Vamos!
- Vamos!

Pai e filho se afastam.

Algum passarinho defecou novamente na menina com mochila. Agora acertou um de seus cachinhos.

Ainda pretendo não avisá-la.

Algo caí em minha cabeça. Passo a mão. Não é cocô. É água. Olho para o céu. Vejo nuvens negras. Chuva. É tempo de partir.

Fim.