3 de abr de 2010

Nunca hei de dormir

É o inevitável. Acordarei em um dia assombroso, daqueles em que banho gelado não me despertará. Então perceberei que morri. Não encontrarei mais a expressão do amigo ao olhar e reconhecer um rosto conhecido, pois ele não notará uma presença que se foi. Verei os pesadelos rodearem os conhecidos, devorando os entes queridos. Pois no mundo que estarei tudo será possível, como se mergulhasse em minha própria imaginação e meus temores dominassem meu cambaleante auto-controle. Cambaleante como a vontade de confessar alguma coisa a alguém, ou de fazer algo proibido. Porém, a unica lei será de não poder abraçar sua amada princesa. Essa é sua unica atitude proibida. Dolorosa proibição.

Verei as sombras encarando minha face, estendendo a mão. Não poderei mais ficar no angustiante limiar e, mais cedo ou mais tarde, terei de partir, minha alma será limpa e de nada mais lembrarei. Talvez um  repugnante inseto fará bom proveito de alma tão cicatrizada. Quem sabe de nada servirá, transformará-se em sabão para limpar as demais almas.

A dor que vai se sobressair sempre será o fato de não poder abraçar sua amada princesa. Imaginá-la em um inverno de solidão, perdida em um mundo de homens selvagens, lobos que comem lobos.

Era melhor não ter acordado... Então nunca durma.

31 de mar de 2010

TIC - tac - SPLASH!

O Sol se jogou entre as montanhas e as nuvens escureceram em breves minutos. Segundos após, círculos inscritos espalharam-se pelas águas do lago. Tic tac, TIC TAC, bém BÉM! O relógio marcou meio dia e, nos milésimos seguintes, a chuva molhou a rosa branca no jardim do Convento cor-de-anil. Uma infortunada pétala foi arremessada no chão pela injuriosa água e, em uma corrente de lama, pedra e desgosto, o belíssimo branco não mais branco permaneceu. De terra foi tingida a pétala que continuara a perambular pelas águas, sinuosas e lamacentas. Então, ela chegou ao ponto de encontro, vulgo lago dos círculos inscritos em movimentos rítmicos. Ora mais rápidos, ora mais lentos, ora tímidos, ora violentos. E o que era branco, que ficou cor-de-terra, que viajou em águas lamacentas, pereceu no fundo do repentino festival. Tudo o que via eram círculos inscritos.

Splash, splash, SPLASH! É o som da queda das nossas pedras, caindo no lago e enterrando a pétala. Nada há de fazer em tempos de tempestade, loucas tempestades de chegada inesperada. Esperançosos, aguardamos o cessar dos maus tempos e, com a rosa em mão, uma belíssima rosa de cor branca em decadência, buscamos a pétala perdida, tão maltratada, deformada e imunda.