9 de jan de 2010

É a vida! (28)

Estava ele caminhando em silêncio pelas avenidas escuras em uma belíssima noite. Percebeu as roupas que usava, algo aborígine feita de penas e couro. Odiou. Definitivamente não tinha estilo algum para ele, era horrendo e de mau gosto. É, bom gosto não é hereditário - pensou. Olhou em volta e avistou o que queria encontrar: uma loja de roupas. Nunca tinha assaltado lugar algum, roubado, talvez matar fosse pior. Então pensou que não haveria problema algum, demonstrando um sorriso maquiavélico enquanto refletia sobre o assunto.

Chegou perto do estabelecimento. Era uma loja de luxo, com uma fachada belíssima e uma porta em madeira nobre. A vidraça era reforçada e tinha alarme em toda parte. John olhou e pensou. Pensou durante alguns minutos e resolver olhar nos fundos. Sim! Havia uma porta! Trancada, mas sem alarmes e frágil. Foi preciso apenas um golpe de pouca força e ele estava dentro do estabelecimento. Andava desviando dos sensores de movimento até chegar no primeiro e principal objetivo: a central de alarmes. Mecheu na caixa escura como se fosse uma criança brincando de ladrão. Desarmou o sistema, nem ele sabia como.

Passou horas esperimentando os trajes. Paletós, camisas sociais, camisetas, calças diversas. Desenvolveu um modelo de seu gosto. Com um paletó preto sem mangas, rasgadas à força, e uma calça negra listrada de branco, ele saiu da loja. Usava um sapato branco e um relógio grande e dourado. Meias vermelhas e cordão de prata de pequena bitola. Óculos escuros de armação preta e lentes castanhas.

...

- Ei! Onde a boneca vai? - disse um sujeito estranho que apareceu entre as sombras. Logo as redondezas se encheram de homens escondidos entre as trevas da noites, com olhos de intenção maldosa. John sorriu e respondeu:

- Quer um pedaço? Venha pegar! És homem para bater em bonecas? Talvez sejas boiola?

- Quero a língua dele! - disse o sujeito estranho, certo de seu triunfo.

- Vai desejar não desejá-la - disse John, com olhos sombrios.

Cercado por marginais da noite em uma grande cidade, John se preparava para o terror. Sabia que era pior que eles.

- Eu faço o inferno para vocês...

Retirou de traz do pescoço uma faca que roubara do vestiário da loja.

- "Bonsoir"...

7 de jan de 2010

É a vida! (27)

A mão bruscamente desenvolve um movimento em formato de arco e acerta um pescoço delicado. Precisava sentir novamente a sensação de fazer dor a alguém e de alivia-la com o tirar da vida. Tinha saudades de se debruçar no sangue sobressalente no chão, vermelho de ferro e ainda quentinho. Lambuzar as roupas, pintar o rosto, experimentar o sabor: como sentia falta desta vida!

Porque matar alguém tão repentinamente, em ato selvagem e com uma coisa tão banal? Primeiro: para ele era excitante matar com objetos diversificados e comuns. Nunca haveriam de pensar que morreriam por causa de uma caneta, com a ajuda da força de um maluco singular. Segundo: todo mundo é culpado, se a maldade for sinônimo de culpa. O mau é único não importando a intensidade, então todos somos maus. O mais simples pecado enche nosso corpo de maldade, e o mau é acumulativo. Quando há desequilíbrio exacerbado entre bem e mau, favorecendo o mau, nos transformando algo como John. Ele gosta de ser assim, se acha especial. Era como se fosse algum semi-deus, filho de alguma divinidade sanguinária, vencendo a morte com sua prole.

Pessoas tendem a esconder sua maldade, apagar. Em vão, ela sempre estará lá. A maioria sabe esconder muito bem, controlar, encaixotar em pensamentos bons. Mais sempre um é do contra, como tudo na vida.

Ele não é aberração, é apenas o mau humano em sua pura forma. Nem humano, nem deus; é mau e mau ultrapassa tudo isso.

5 de jan de 2010

Aqui tudo posso!

Já pensou em matar alguém que odeia e o fez, em pensamento? Já traiu seu namorado ou namorada em sua imaginação? Usufruiu das riquezas do mundo em sonhos durante a noite? Em sua mente tudo é possível, e fico feliz por isso. Talvez ficaria doido se não pudesse ser feliz na particularidade de meus neurônios. Seríamos mais felizes se tudo que nós desejamos em nossa imaginação se concretizasse na realidade? Talvez sim, talvez não.O fato é que é difícil realizar nossos desejos utópicos. A primeira etapa para a materialização do desejado se refere ao falar, falar é fácil, fazer é difícil, não é mesmo? Mas antes de fazer, vem planejar... como planejar ser rico? Talvez seja possível, mas dá trabalho... ganhar na loteria é impossível? Como matar alguém que odeio? Há riscos, tem a polícia. Como fazer um crime perfeito? Bem, a concretização morre no planejar e voltamos à rotina do possível para humanos pouco motivados.

É por esses e outros motivos que prefiro escrever. Com palavras tudo posso e sem gastar ou precisar de muita coisa, apenas imaginação ou descrição do cotidiano. Claro que devo respeitar os leitores... mas os limites continuam excepcionais.

3 de jan de 2010

É a vida! (26)

Barulho de pancadas na porta. Daniela estranhou o fato, já era tarde e se preparava para dormir. Resolveu atender a porta, a curiosidade era grande e poderia ser mortal.

- Quem é e do que se trata? - disse ela.

- Preciso se ajuda, moça! Por favor, vamos conversar! - disse Apuã, em um tom doce.

Ele sentiu um calafrio que subiu a espinha, como se algo quisesse se manifestar em sua personalidade. Estava certo de que a situação estava crítica. Por que começara a saber de coisas que nunca havia visto antes?

Daniela era psicóloga e passou todos os últimos dez anos ajudando pessoas, não seria agora que ela o deixaria de fazer. Abriu com cautela a porta. Devagar, espiando pela brecha que se formava. Avistou um rapaz vestido com trajes indignas, sujo, mal cheiroso, bonito e com um charme sobrenatural.

- Moça, preciso saber o que dizem estes papéis!

Fascinada com o rapaz e com o intuito de ajuda-lo, ela deixou o garoto a vontade. Levou-o para o sofá, deu-lhe alimento. Depois foi ao que interessava, apesar de pensar em outra coisa extremamente carnal.

- Deixe-me ver os papéis, rapaz.

Daniela averiguou os pedaços de jornais, tratavam-se de notícias sobre um serial-killer muito famoso, que abalou o mundo vinte anos atrás. Falavam sobre seus atos macabros e fascinantes, sua arte particular. John era o nome dele.

A doutora explicou o assunto para o rapaz, que ouvia tudo cabisbaixo e com as mãos grudadas no rosto. Parecia que passava mal, ria às vezes, mas parecia sentir dor ou algo desse tipo, dor na alma.

- Você está bem? - perguntou ela, um pouco assustada.

- Nunca estive melhor! É a vida, doutora!

Olhou para a mulher como se não visse uma figura feminina há muito tempo. Começou a olhar fixamente e a movimentar levemente a cabeça no sentido anti-horário.

- Como acha que você ficaria toda cortadinha? - disse Apuã.

- Pare com isso, garoto! Você precisa de ajuda!

- Prazer, John.

Frio na barriga, olhar amedrontado e interrogativo, mão a agarrar uma caneta bic.

O gato observava a cena pela janela. Nada entendia. Talvez estivesse observando o peixinho dourado de Daniela, ou talvez olhasse para os ferozes olhos de Apuã. Apuã?