13 de mai de 2010

Algo mais

São olhinhos azuis que cismam em olhar incessantemente em duas direções. A primeira, o rapaz de cabelo bonitinho. A segunda, a casca de banana. O plano é tosco. Fingiu andar distraída, fingiu pisar na casca de banana, fingiu escorregar. Simulou que caiu. Certamente, o rapaz não a deixaria ali no chão. Era a mais bonitinha da classe, a mais comentada entre os garotos, o pecado do momento. Claro que o rapaz se aproveitou da situação. Aproximou-se e entendeu a mão. Ela concedeu a ajuda, com um sorriso não simulado. E, ao levantar, abraçou-o em um gesto de agradecimento. Ele franziu a testa ao se deparar com a situação e sussurou um "de nada". Sussurrou algo mais, algo que a fez sorrir novamente.

O abraço prolongou-se demais e a multidão parava para ver a cena incomum. Afinal, não eram namorados. Eles perceberam a incoerência e se separaram com muito receio e pesar.

São olhinhos azuis que cismam em olhar o rapaz andar na direção oposta, com o vento movimentando os cabelos bonitinhos. E o sorriso se refaz quando a memória traz a tona o susurro. O sussurro que era algo mais. 

12 de mai de 2010

(41) É a vida, pois a vida continua...

Onze e vinte da noite. 

Retornou. Cansara de toda aquela vidinha pouco agitada e mal paga. E o pior: sua alma havia amolecido. Era o que não podia aturar. Agora sentia-se fraco, desajeitado, sem mãos para fazer nada. Precisava matar, com ou sem mão. Nem que fosse com a boca ou com os pés. Pegaria uma faca enorme com sua boca, daquelas de cortar cana, e enfiaria no coração de alguém, impulsionado a arma com a força de sua língua.

Não haveria de dar certo. Sua língua era desprovida de tamanha força. As pernas talvez seriam uma solução viável. Sem chance. Era desengonçado demais com as pernas, seu talento concentrava-se em suas mãos. Mas ele não tinha mais mãos. Havia esquecido de como utilizá-las, de como atuar como um verdadeiro, destemido e infalível assassino. Assassino esse que já venceu a morte, que é comparado a deuses "olimpianos" e possui um saldo incomparável de mortes. Temido e procurado por qualquer entidade de segurança.

Onze e quarenta e nove. O Senhor Ferreira sobe as escadas de sua casa, com o objetivo de alcançar seu quarto para realizar o ato fisiológico de dormir. Tal senhor possui nome renomado, dotado de falcatruas em sua vida. Falcatruas essas desconhecidas por muitos, mas não para John. Seria uma morte justa.

Senhor Ferreira subindo as escadas e um vulto surge em sua frente, efetuando um grito estratégicamente aterrorizador. Assustado, dá um pulo pra trás. Não há chão, há o desnível do degrau. O senhor caí rolando, uma queda terrivelmente violenta. Quebra diversos ossos e morre de uma grave e dolorida hemorragia interna e externa. Sim, é algo sobrenatural.

John matou, e suas mãos sentiram que seu dono voltou a fazer o que ama. Agora respondem ao chamado do trabalho, o tão gratificante trabalho. A chamada arte singular de um serial-killer. Todos os segredos de mortes sensacionais e excitantes afloraram em sua mente. O show há muito tempo parado haveria de prosseguir.

E o sangue marcava na escada o local onde cada osso perfurou a pele, os órgãos, a vida do Ferreira. 

Onze e cinquenta e um.

10 de mai de 2010

Um péssimo estilo

Veja o carrossel. Tantas luzes brilhantes distribuídas em sua carcaça amarela. O teto pintado de retângulos vermelhos, alternados por outros brancos. Colunas espalhafatosas de coloridas e cavalinhos rosas.

E quando o maquinário dá a partida, as luzes se fundem. A velocidade torna-se extraordinária e o branco reina triunfante. É agora uma estrela, a estrela das crianças. Vai subir ao céu, como um disco. Um disco voador.

E voou...

Veja só! É um gatinho! Uma corda em seu pescoço, presa ao carrossel. Rodopiou tanto que vomitou tudo que lhe forrava o estômago. Uma criança má o amarrou lá. Uma criança verde.

Eis que era um experimento, o qual não pode ser concluído. O gatinho foi arremessado pelos ares, sem paraquedas, sem nada. A corda arrebentou e o gatinho voou. Pobre dele.

Ele não caiu de pé...

Não sentira nada quando espatifou-se no chão. Estava morto minutos antes de arrebentar o focinho no chão, e todo o resto. Sorte, sorte dele. Má, má sorte da dona. Que com seu sapato amarelo, estupidamente caro, pisou nas entranhas do bichano.

E para o lixo o calçado foi... 

O carrossel desceu. Não porque tinha que descer. Desceu pois não tinha escolha de não descer. O maquinário parou, o branco sumiu e as cores vívidas voltaram. A fusão terminou. Crianças verdes não há mais. Da loucura toda, só resta o gatinho no chão. Na verdade, o que sobrou dele.