22 de jan de 2010

Instinto

Após sair da aula do Centro de Formação de Condutores a coisa mais sensata a se fazer é chegar ao outro lado da via utilizando a faixa de pedestres. Mas não, a faixa estava longe e ele não perderia tempo, adicionada a má vontade. Atravessou imediatamente em frente, passando por local inadequado para uma travessia segura, confiando apenas na autoconfiança. Para que serviria aula de legislação de trânsito? Instinto.

Bate a fome e a preguiça de achar um lugar decente para uma boa refeição, bolso fechado vem junto. Então bate na portinhola de nossas mentes idéias malucas. O supermercado está à frente, que tal um lanchinho? Fazer compras? Não... lá tem cafezinho de graça em copinhos descartáveis extremamente higiênicos. Chegando por lá ainda se depara com um pote de biscoito, com uma inscrição animadora: degustação. Pronto! Almoço no supermercado. Café  e biscoito. Para que gastar dinheiro com refeição? Pode-se comer de graça! Instinto.

Por último a vontade da sobremesa. Aí o bolso abre, pois sobremesa é essencial. Faz-se o ritual da escolha do biscoito e do chocolate. Escolha concluída, hora do caixa. Logo após, senta-se ali mesmo por perto e devora as recentes comprinhas. Por que procurar um local agradável para comer as guloseimas, longe de olhares curiosos? A vontade vem e comemos, não importa onde. Instinto.

19 de jan de 2010

É a vida (32) - Olhos em chamas

O chão era de uma requentada seleção de mármores coloridos e nobres. As janelas tinham cortinas de uma cor azul-celeste, vidros temperados esverdeados e armação em aço inoxidável. Os móveis lembravam castelos medievais, com toques de maçonaria. O canto da parede ostentava uma conjunto de espadas diversas, de diversos tamanhos e posicionados com algum significado desconhecido. O rodapé era de granito preto e alto, o que dava ao ambiente um ar suntuoso. Um pequeno palácio em uma zona de classe média, muito bem escondido. Porém, alguém encontrou essa maravilha.

Ele não acreditou no que o acaso lhe concedeu. Interessou-se pela decoração estilo idade das trevas, sentou em uma poltrona com detalhes em bronze e ficou rodeando o ambiente com os olhos. Aprendia com cada objeto, guardava as imagens com prazer, pois era tudo encantador. Chegou perto do conjunto de espadas, tirou a de tamanho médio da bainha e começou a golpear o ar. Golpeava e ria. Fingia ser samurai, cavaleiro, pensava em salvar a princesa, matar dragões... divertia-se com a relíquia que ainda era preservada de maneira surpreendentemente afiada.

Da janela a donzela observava o instrumento do seu amado, naquele momento manuseada por um bárbaro. O cavaleiro partiu sem sua companheira de batalha. Subiu ou desceu desarmado. Desonra, vergonha.

Lágrima no rosto de Bárbara.
Olhos de John em chamas.