3 de jul de 2010

Improviso Insensato I

A lua surgiu de cabeça para baixo, e não faz diferença alguma. Seu brilho parecia mais opaco, talvez por toda umidade do ar. Morcegos sobrevoavam as negras copas das árvores, como doidos. Cegos em um mundo de cegos.

Neblina densa ofuscava os seus olhos. Ele sacudiu a mão em um movimento de leque. Não consegiu sucesso algum. Ao longe ouviu gritos. Gritos conhecidos de alguém que já começara a lembrar.

Era um suposto amigo. Em lembranças distantes, lembrou que era um amigo. Os dois reconheceram-se a muito custo, pois parecia que não se viam há algumas décadas. A lua de cabeça para baixo, suas mentes reviradas por uma destruidora confusão. Precisavam de algum tempo para reorganizar suas idéias.

A neblina dissipou-se em meio termo, pode-se observar estradas a uma curta distância. Os dois se entre olharam e pensaram na mesma ação: aproximar e reconhecer os caminhos.

Não eram familiares, nunca haviam visto nada parecido. Eram quatro caminhos. Um pequeno, que se bifurcava em dois; um totalmente escuro, em que nada se via; outro tão claro que doía os olhos ao observar. Acharam incrível. E quando olhavam para trás, viam apenas neblina. Decidiram não enfrentar aquela densa e misteriosa neblina. Escolheram um dos caminhos e partiram.

Influenciados por uma luz de brilho opaco, da lua de cabeça para baixo, escolheram o caminho escuro. Encontraram alguns palitos de fósforo no bolso, e se guiaram com a luz deles. Andaram até o primeiro tropeço, depois andaram novamente. E, pareceu ficar mais escuro a cada paço efetuado.


29 de jun de 2010

Por baixo dos vestidos




O pai, senhor distinto, vestido socialmente, acompanha as duas filhas. Uma está à direita, a outra à esquerda. Ambas, de mãos dadas com o papai. Meninas de vestido, até um pouco abaixo do joelho. Algum tipo de controle do pai. Possuem faces rosadas e inocentes. Infantis, de certa maneira, mas já aparentam contemplar a adolescência.

Os rapazes passam bisbilhotando as duas. O pai olha tentando intimidar. Entretanto, rapazes mal intencionados não se intimidam facilmente. Mas papai segura a mão de cada uma de suas filhas, com carinho e firmeza. Ele não vai soltar nenhuma delas.

Elas sentem o desejo de experimentar. No tempo da promiscuidade, a inocência é ilusão. O senhor, pai distinto, vestindo socialmente, está iludido. Os rapazes passam, elas olham. Mas olhar não é pecado. O pior de tudo é imaginar o indevido. E o indevido da imaginação o pai não controla. Pois o que passa na mente das moças é inerente ao mundo delas e somente delas. O mundo em que um senhor, por mais distinto que seja, não pode invadir. Ele está iludido.

Daí, o escudo do pai caí. Pois a imaginação das meninas aflora e os rapazes olham. Eles olham, elas olham. A imaginação aflora. O escudo da proteção paterna cai e senhor distinto fica indefeso perante os olhares dirigidos às filhas. Mas ele ainda tem as amarras, suas mãos junto as delas. Papai não vai soltar a mão. Ele não vai. A imaginação voa, mas o corpo está devidamente amarrado.

Um dos rapazes passa a língua no lábio inferior, uma espécie de código. As meninas trocam olhares e sorriem entre si. Papai não é de escândalo, não há nada por fazer. O mínimo é sair dali, procurar um lugar distinto, para um senhor distando e moças supostamente distintas. Mas, antes disso, uma das meninas responde ao rapaz. Realiza uma mordida no lábio inferior. O pai segura as mãos um pouco forte. E resmunga uma oração.

O senhor, pai, distinto, vestido socialmente, deseja o caminho para o céu. As filhas nem tanto. A estrada para o inferno é mais prazerosa e requer menos trabalho. O caminho para o céu é um penoso celibato. É melhor antes casar, mas casar demora demais. O que fazer? Talvez se render aos olhares maliciosos e ir atrás de algo mais. Mas papai não vai soltar a mão. Filhas iludidas. O pai mais ainda. Pois a imaginação de adolescentes é um grande inferno. Porém, as amarras são fortes.